Qual Desenvolvimento Urbano Sustentável?

Recebi um convite especial do pessoal da Rede Empreendedora de Desenvolvimento Econômico, Social e Sustentável (REDESS) para conversar sobre Desenvolvimento Urbano Sustentável. Foi um bate-papo bem interessante em torno da questão sobre qual desenvolvimento queremos para nossas cidades e o papel que as comunidades locais tem nesse processo.

Confira abaixo no vídeo gravado do debate e deixe seu comentário!

Atualização (Outubro de 2026) – segue abaixo um resumo da live, feito com recurso ao uso de IA.

Diálogo Estruturado: Desenvolvimento Urbano Sustentável

Vídeo: “Desenvolvimento Urbano Sustentável”, Live com Henrique de Castro #REDESSbr
Link: https://youtu.be/xTt1N_jLtcY
Data original de publicação: 3 de agosto de 2020
Intervenientes: Bernardo (Anfitrião – REDESS br) e Prof. Dr. Henrique de Castro (Convidado)


1. Abertura e Apresentação da Iniciativa REDESS

  • Bernardo [00:00:00]: Dá as boas-vindas ao público na 9ª edição do espaço “Bistrô” aos domingos à noite. Explica o propósito de trazer debates positivos antes do início da semana e apresenta a REDESS (Rede Empreendedora de Desenvolvimento Económico, Social e Sustentável), criada em parceria com a Irene e o Marcelo [00:00:46]. Introduz o tema da noite e apresenta o convidado, o Prof. Dr. Henrique de Castro [00:01:51].
  • Henrique de Castro [00:01:51]: Agradece o convite a Bernardo, à Irene e à equipa da REDESS. Destaca a importância de promover debates estruturados durante o período da pandemia para compreender os desafios atuais e futuros [00:02:16].

2. Pandemia, Mudanças Climáticas e a Realidade das Metrópoles

  • Bernardo [00:02:45]: Introduz a primeira questão central, propondo olhar para a sustentabilidade além do meio ambiente estrito, ligando o desenvolvimento urbano ao cenário pré-pandemia, ao momento crítico atual e ao futuro das cidades [00:03:21].
  • Henrique de Castro [00:03:40]:
    • Explica que a análise dos impactos da pandemia sobre grandes metrópoles (como São Paulo e Rio de Janeiro, onde os casos se concentram) exige articular três dimensões temporais: olhar para o passado (o modelo que gerou os problemas atuais), compreender o presente (onde velhas carências se somam à crise sanitária) e projetar o futuro [00:04:24].
    • Frisa que ninguém detém respostas prontas, sendo fundamental o trabalho em rede para identificar ferramentas de transformação [00:05:15].
    • Recorda que o conceito de sustentabilidade é debatido há mais de 30 ou 40 anos, mas a crise das alterações climáticas agravou-se, gerando fenómenos extremos e “refugiados climáticos” [00:06:04].
    • Aponta a centralidade das cidades nesta equação: concentram mais de metade da população mundial e a maior fatia das emissões de gases com efeito de estufa e poluição atmosférica [00:07:03]. O crescimento urbano desordenado e sem planeamento criou as condições ambientais e sociais que agravaram a propagação do vírus [00:07:43].

3. O Conceito de Desenvolvimento Urbano Sustentável e Justiça Socioambiental

  • Bernardo [00:08:16]: Menciona o comentário de Neide Lencioni sobre o impacto destrutivo das atividades humanas na natureza e como o isolamento social evidenciou isso. Pede a Henrique uma definição abrangente de “desenvolvimento urbano sustentável” que vá além do chavão ecológico [00:09:14].
  • Henrique de Castro [00:09:23]:
    • Distingue o uso corporativo/publicitário do termo “sustentabilidade” do conceito real aplicado ao território [00:09:34].
    • Define o desenvolvimento urbano sustentável através da articulação obrigatória das dimensões ambiental, social e económica, colocando a dimensão social em primeiro lugar [00:10:15].
    • Critica o padrão histórico de organização económica e capitalista das cidades, que produz fortes desigualdades socioespaciais e faz com que os impactos ambientais recaiam sobretudo sobre as populações mais pobres e vulneráveis [00:10:36].
    • Lança a pergunta-chave: “Desenvolvimento para quem?” [00:11:10]. Defende que a sustentabilidade não pode ser apenas um “rótulo num produto bonitinho” sem melhoria real de vida para os mais necessitados, resumindo o conceito como o desenvolvimento de cidades com maior justiça socioambiental [00:11:53].

4. Gestão Pública, Cidadania e o Papel das Eleições Municipais

  • Bernardo [00:12:24]: Questiona como estão as grandes metrópoles brasileiras (como Rio e São Paulo) neste aspeto e até que ponto a responsabilidade é exclusiva da gestão pública ou também dos cidadãos [00:13:09].
  • Henrique de Castro [00:13:18]:
    • Afirma que é um problema de gestão pública, mas que os cidadãos têm a responsabilidade primordial de exigir um novo modelo através das suas escolhas democráticas [00:13:26].
    • Analisa que, historicamente no Brasil, a pauta socioambiental nunca atingiu um nível de prioridade popular capaz de forçar os governos eleitos a abandonarem uma visão puramente desenvolvimentista focada apenas em índices macroeconómicos desconectados da preservação ambiental e da redução de desigualdades [00:14:41].
    • Destaca a importância estratégica das eleições municipais (prefeitos e vereadores), pois são estes atores que definem as políticas públicas com impacto direto na gestão e organização do território [00:16:19].
    • Defende a mobilização de base e a consciencialização comunitária para exigir políticas integradas — desde transporte público limpo e ciclovias até à tributação de indústrias poluentes —, tirando a sustentabilidade do plano de “peça publicitária” para a prática real [00:17:57].

5. Práticas Individuais e Consciencialização no Dia a Dia

  • Bernardo [00:19:09]: Lê a pergunta de uma colaboradora da REDESS sobre o que as pessoas podem fazer individualmente no seu quotidiano para promover o desenvolvimento sustentável (consumo consciente, apoio a produtores locais, educação) [00:19:26].
  • Henrique de Castro [00:19:46]:
    • Reconhece que é difícil romper com a rotina imposta pelo modelo urbano vigente, tratando-se de um “trabalho de formiguinha” de longo prazo [00:20:19].
    • Usa o exemplo da reciclagem: algo praticamente inexistente há décadas que, embora ainda distante do ideal no Brasil, foi sendo gradualmente incorporado nos hábitos e na infraestrutura ao longo do tempo [00:20:34].
    • Observa que o choque do confinamento na pandemia (algo inédito nos últimos 100 anos) levou muitas pessoas a refletirem sobre os seus modos de vida, abrindo espaço para mudanças comportamentais que também pressionam transformações políticas [00:22:08].

6. Estudo de Caso: “Porto Maravilha” (Rio de Janeiro), Gentrificação e Espoliação Territorial

  • Bernardo [00:23:43]: Introduz o caso emblemático da revitalização da zona portuária do Rio de Janeiro (Porto Maravilha), realizada no contexto do Mundial e dos Jogos Olímpicos [00:24:08]. Aponta o contraste entre a beleza estética/turística (como o Museu do Amanhã e o VLT) e a falta de habitação social, a persistência de cortiços precários na Gamboa e a poluição e falta de saneamento na Baía de Guanabara [00:24:42].
  • Henrique de Castro [00:25:59]:
    • Contextualiza historicamente os projetos de “revitalização”, “requalificação” ou “reabilitação” de áreas centrais e portuárias desde a segunda metade do século XX na Europa e nos EUA (citando o caso clássico das Docklands em Londres) [00:26:33].
    • Explica a mecânica económica por trás destes projetos: utiliza-se um discurso louvável de recuperação de áreas degradadas, mas aplica-se um modelo de cima para baixo (top-down) onde o dinheiro público é investido para valorizar o solo urbano, permitindo que o capital imobiliário financeiro se aproprie de forma privada das mais-valias geradas [00:28:24].
    • Descreve o fenómeno da gentrificação: com a valorização comercial e o aumento dos preços e alugueres, a população pobre residente é expulsa para dar lugar a classes mais abastadas [00:29:19].
    • No caso do Porto Maravilha, aponta que o modelo falhou duplamente: além de não atender a população vulnerável local, entrou em colapso financeiro devido à crise e à corrupção, deixando milhares de milhões investidos sem retorno social nem imobiliário [00:30:22].
    • Cita o conceito de “capitais do urbano” (de Eduardo Marques, do Centro de Estudos da Metrópole) e o conceito que trabalhou na sua própria tese de doutoramento — espoliação territorial —, em que o Estado atua em prol da acumulação privada em detrimento das necessidades básicas da população local [00:31:06], [00:33:15].
    • Reforça que a dimensão social e a sustentabilidade têm uma ligação umbilical: não existe intervenção sustentável quando se expulsa moradores vulneráveis sem qualificação profissional, emprego ou garantia de habitação [00:32:40].
  • Bernardo [00:35:24]: Reforça a crítica, afirmando que entre obras de fachada como o Museu do Amanhã/Aquário e a revitalização de cortiços ou do património histórico e social na Gamboa, a prioridade deveria ser as pessoas [00:35:56].
  • Henrique de Castro [00:36:52]:
    • Acrescenta que um país com a riqueza do Brasil teria capacidade para fazer ambos (ter transporte moderno/museus e garantir habitação digna e saneamento), mas o problema reside na definição política de prioridades sob a lógica neoliberal do “empresariamento urbano” e da “cidade-mercadoria” [00:37:58], [00:39:15].
    • Critica também os erros de localização em políticas habitacionais (como nalguns empreendimentos do programa Minha Casa, Minha Vida), construídos em periferias extremas e isoladas, sem serviços básicos ou comércio próximo, obrigando os trabalhadores a deslocações diárias de quatro horas [00:39:59].

7. Exemplos Internacionais, Urbanismo Tático e Iniciativas Comunitárias

  • Bernardo [00:41:21]: Pede exemplos positivos de intervenções urbanas no mundo ou iniciativas locais que funcionem como referência [00:41:29].
  • Henrique de Castro [00:41:51]:
    • No plano internacional (União Europeia): Destaca que, por terem questões sociais básicas (habitação, saneamento) largamente resolvidas e forte capacidade financeira (citando o pacote europeu de 750 mil milhões de euros pós-pandemia), as cidades europeias conseguem focar-se fortemente na transição ecológica e nas Smart Cities (transporte público elétrico, redes de ciclovias, incentivos fiscais para energia solar e eficiência energética) [00:42:10]. Ressalva que no Brasil qualquer importação destes modelos tem de priorizar antes a base social, a saúde e a educação [00:44:05].
    • No plano local e comunitário (Brasil): Destaca as ações de baixo para cima (bottom-up):
      • Projeto Fazendinhando (Jardim Colombo, São Paulo): Iniciativa liderada pela arquiteta e urbanista Ester Carro (sua colega no mestrado), que mobilizou a comunidade para transformar um antigo “lixão” num espaço público de lazer, cultura e apoio social na favela [00:45:42], [00:47:13].
      • Urbanismo Tático e Parklets: Intervenções rápidas e de baixo custo feitas pelas próprias pessoas — como transformar lugares de estacionamento automóvel em pequenos espaços de convivência e lazer (parklets) ou pintar ciclovias experimentais —, demonstrando que a rua não pertence apenas aos carros e pressionando o poder público a transformar essas experiências em políticas públicas permanentes [00:47:33], [00:48:39].
      • Sublinha a importância de unir estas ações comunitárias a candidaturas coletivas e pressão política direta sobre o executivo e o legislativo municipal [00:52:15].

8. Educação e Exemplos Práticos no Rio de Janeiro

  • Bernardo [00:53:18]: Retoma a questão da Neide sobre educação, citando estudos europeus (incluindo dados recolhidos em Portugal) que demonstram que cada dólar investido na educação na primeira infância poupa sete dólares futuros em gestão pública (saúde, segurança, limpeza urbana) [00:53:54]. Partilha dois exemplos de mobilização cidadã no Rio de Janeiro:
    1. Horta Comunitária do Vinil: Moradores ocuparam um terreno municipal abandonado criando uma horta e espaço cultural, conseguindo travar na justiça/política a venda do terreno pela prefeitura [00:54:27].
    2. Jardim de Alah: Moradores uniram-se para construir equipamentos infantis e parque canino face à inércia municipal [00:55:05].
  • Henrique de Castro [00:55:42]:
    • Valida os exemplos como prova da força das comunidades organizadas em todo o Brasil [00:55:53].
    • Menciona o seu próprio contributo na divulgação científica e cidadã através do portal e redes sociais Práxis Urbana (praxisurbana), onde mantém uma “Agenda Urbana” centralizando congressos, eventos gratuitos, lives e notícias sobre planeamento urbano e direito à cidade [00:57:05].
    • Reitera que o verdadeiro desenvolvimento urbano sustentável exige participação ativa e contínua: criar hortas, fazer intervenções de base e, simultaneamente, cobrar transporte público e infraestrutura de grande escala que só o Estado pode executar [00:58:15].

9. Encerramento e Considerações Finais

Bernardo [01:02:10]: Informa sobre a disponibilização do vídeo no YouTube e no Facebook e despede-se do público [01:02:33].

Bernardo [00:59:17]: Agradece a presença e a profundidade da análise de Henrique de Castro, destacando que o mais importante é o impacto transformador que a conversa deixa em quem assiste [00:59:52].

Henrique de Castro [01:00:14]: Agradece à REDESS pela oportunidade, reforçando que todos são aprendizes num processo coletivo [01:00:25]. Conclui deixando o apelo para que se aproveite este momento histórico de reflexão para construir, em unidade, cidades mais inclusivas, resilientes, socialmente justas e ambientalmente equilibradas [01:01:05].